25 fevereiro 2010

Pequenos comentários #2 - Oscar

Resolvi fazer pequenos textos sobre os filmes envolvidos de alguma forma no Oscar. Neste post, colocarei três dos dez indicados a Melhor Filme, e nos próximos dias, possivelmente, farei mais uma postagem com comentários sobre O Segredo dos Seus Olhos, Um Olhar do Paraíso e Guerra ao Terror.

DISTRITO 9

Uma ficção científica com apelo social. Assim é Distrito 9. Utilizando um orçamento até modesto para os dias de hoje, sobretudo porque, como já disse, trata-se de uma ficção científica – e mesmo assim a obra oferece ótimos efeitos especiais –, o filme faz uso do formato mockumentary para mostrar a relação de segregação que os seres humanos estabeleceram com os alienígenas que estacionaram sua nave sobre a cidade de Johanesburgo, numa metáfora para o apartheid ou até mesmo para o comportamento costumeiro dos seres humanos para com grupos que, por algum motivo, são considerados inferiores. O próprio estilo do longa, auxiliado pela fotografia clara e amarelada, causa desconforto no espectador, que testemunha toda a pobreza e a miséria nas quais vivem aqueles seres enquanto acompanha a ação de despejo comandada pelo protagonista do filme, que posteriormente enriquece a trama com uma metamorfose física e psicologicamente perturbadora, sentindo – e transmitindo ao espectador com uma ótima atuação – na pele o preconceito sofrido por aqueles que ele antes maltratava. Assim, Distrito 9 torna-se não só um exercício de lazer, mas também de reflexão.

Distrito 9
District 9, Neill Blomkamp, 2009.

UM SONHO POSSÍVEL

Um Sonho Possível é conduzido respeitando o fato de contar uma história naturalmente tocante. Assim, o filme jamais faz uso de recursos que poderiam torná-lo apelativo e, consequentemente, falso. A atuação de Sandra Bullock é contida e, lutando contra a própria aparência, ela desconstrói a imagem de arrogante que o espectador forma à primeira vista para, posteriormente, conquistá-lo, mostrando que por trás da maquiagem, do penteado, do carrão e da mansão há uma mulher simples e profundamente bondosa, e é necessário salientar que essa impressão jamais parece forçada (Sandra Bullock muitas vezes deixa transparecer seus trejeitos de atriz cômica). Quinton Aaron também faz do seu Michael Oher um sujeito adorável. Com o semblante sempre triste, ele consegue transformar uma pessoa enorme e extremamente forte em alguém aparentemente indefeso e incapaz de machucar os outros, a não ser em situações bem específicas. É a dinâmica entre os dois que move Um Sonho Possível, um filme simples e bonito, até bobo, que ganha impacto por contar uma história real.

Um Sonho Possível
The Blind Side, John Lee Hancock, 2009.

PRECIOSA - UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA

Precious é gorda, negra, pobre, sofre abusos sexuais em casa, tem um filho portador de Síndrome de Down, não consegue aprender coisa alguma na escola, é seguidamente humilhada e espancada pela própria mãe, não tem amigos e está grávida pela segunda vez. Em suma: é a tragédia em pessoa, o tipo de protagonista que dá a um filme todos os recursos para que ele seja concebido como um dramalhão choroso e pouco verossímil. Mas não é isso o que acontece aqui. As ótimas atuações dão a exata sensação de como é insuportável levar aquela vida miserável – tanto que, para conseguir lidar com sua própria realidade, Precious imagina intensamente algumas situações de glória –, mas, com apenas duas exceções perfeitamente compreensíveis depois de tanto sofrimento, e encaixadas organicamente no filme, jamais somos obrigados a testemunhar discursos de lamentação. O único problema é que, na ânsia por ser diferente, e não apenas mais um filme sobre preconceito e dificuldades da vida de uma pessoa gorda, negra e pobre, Preciosa às vezes exagera em seus devaneios. Isso, no entanto, não tira seus outros méritos. Bom filme.

Preciosa - Uma História de Esperança
Precious, Lee Daniels, 2009.

22 fevereiro 2010

Idas e Vindas do Amor


Falta de foco é um problema que pode arruinar um filme, e excesso de personagens certamente é a causa mais freqüente disso. Não é preciso ir longe para buscar exemplos: Homem-Aranha 3, um tipo de filme completamente diferente do tratado neste texto, mas que se encaixa com perfeição no que quero dizer, dividiu a atenção entre três vilões e um herói com dupla personalidade, resultando em um completo desastre simplesmente porque não deu a devida atenção a nenhum deles. Claro que há exceções. O excelente Simplesmente Amor está aí para provar isso, mas Richard Curtis sem dúvida é um roteirista muito mais talentoso do que Katherine Fugate, cujo trabalho conheci apenas neste péssimo Idas e Vindas do Amor, um filme que sofre exatamente com o problema que expus no início do parágrafo.

Uma série de personagens, interpretados por estrelas de Hollywood como Ashton Kutcher, Julia Roberts, Jessica Alba, Anne Hathaway Jennifer Garner, Jessica Biel, Jamie Foxx, entre outros, e alguns astros da TV, como Patrick Dempsey e Eric Dane (ambos de Grey’s Anatomy), que estão de alguma forma relacionados, precisam superar alguns problemas que aparecem no Dia dos Namorados. Uma faz de tudo para esconder do parceiro que é atendente de tele-sexo, outro precisa se dividir entre a amante e a esposa, um casal que acabou de se conhecer interage durante uma viagem de avião (uma das partes mais simpáticas, mas pouquíssimo aproveitada), um garotinho apaixonado quer se declarar à amada, dois casais de adolescentes... completamente irrelevantes... A população do filme é tão grande que às vezes nos esquecemos da existência de certos personagens, tamanho é o tempo levado para que eles apareçam novamente na tela.

Naturalmente, as histórias dessas pessoas jamais chegam a envolver o espectador, e a falta de carisma dos atores e o humor pobre, bobo e sem graça apenas contribuem para o resultado final do filme ser trágico, no pior sentido da palavra. A única cena que consegue arrancar gargalhadas envolve Queen Latifah (que, sim, também faz parte do elenco) e dura no máximo dez segundos. Portanto, Idas e Vindas do Amor é apenas mais uma prova de que, definitivamente, não é um punhado de estrelas que faz um bom filme, nem quando ele tem a pretensão de ser apenas bonitinho e engraçadinho.

Idas e Vindas do Amor
Valentine's Day, Garry Marshall, 2010.

13 fevereiro 2010

Avatar


Criar expectativas para um filme é algo perigoso, já que dificilmente elas são atendidas e, mesmo que o longa seja bom, fica um sentimento de frustração em função da espera por uma coisa ainda melhor; por isso, sempre procuro manter os pés no chão. Com relação a Avatar e todo o marketing que o envolveu a respeito de seus aspectos supostamente revolucionários, no entanto, foi impossível não elevar o nível de expectativas ao patamar mais alto e perigoso. Pois, para a minha surpresa, Avatar prometeu e cumpriu, e, como se não bastasse, ainda foi muito além do que eu esperava.

Comandados pelo ambicioso Selfridge (interpretado com excentricidade por Giovanni Ribisi), cientistas e homens do exército trabalham agregados, embora não harmoniosamente, para estudar e entender o planeta Pandora a fim de descobrir uma forma de se integrar aos habitantes locais, os Na’vi, para conseguir, de forma pacífica, extrair de seu subsolo o Unobtanium, uma pedra valiosíssima. Como o ar do planeta é venenoso aos seres humanos, eles criam, em laboratório, os avatares, que conjugam o DNA dos Na’vi e de pessoas pré-selecionadas. Por meio de uma tecnologia existente em 2154, ano em que o filme se passa, é possível implantar nesses seres a consciência de seus pares, que os controlam enquanto entram em uma espécie de transe dentro de uma máquina. Jake Sully (o simpático Sam Worthington), paraplégico que integrou o programa para substituir o irmão gêmeo morto, perde-se em sua primeira expedição pela floresta após ser atacado por um animal e acaba encontrando Neytiri (Zöe Saldana, numa interpretação tocante), que o leva para o seu povo e começa a ensiná-lo seus costumes, tradições e rituais – e é assim que Jake passa a recolher e repassar o máximo de informações aos seus superiores.

Os detalhes de Pandora são impressionantes. Embora criadas em computador, é possível jurar que todas aquelas plantas e criaturas existem de fato. A vegetação não aparece na tela simplesmente, ela reage a tudo ao seu redor; e a técnica de performance capture, que prometeu e trouxe avanços muito significativos, é realmente de uma minúcia fascinante, basta reparar na fluidez dos movimentos e nas expressões dos Na’vi. É preciso destacar também o cuidado com a textura da pele, que só se difere da dos seres humanos na cor e é incrivelmente real – para não dizer perfeita –, e outros pequenos detalhes, como as veias proeminentes sob a pele e até mesmo os pequenos vasos de suas orelhas, que, a propósito, lembram as dos felinos não só no formato, mas também no modo como se mexem, reagindo quando os sentidos são aguçados, o que, de uma maneira quase imperceptível, confere ainda mais vida àquelas criaturas.

É interessante notar ainda como os Na’vi e a vegetação convivem de forma harmoniosa, estabelecendo inclusive uma ligação física que integra uns aos outros com uma intensidade quase sensível ao espectador – e isso possibilita que a mensagem ecológica claramente pretendida pelo filme chegue ao público com mais força. Durante mais de uma hora, somos imersos nesse mundo novo, e, depois de ver tanta beleza e passar a conhecer a rica cultura daqueles humanóides, é impossível não mudar para o lado deles, que, diferente dos seres humanos, não precisaram destruir seu habitat para ser felizes. Alguns podem afirmar que essa mudança de lado se deve ao tratamento maniqueísta dado à trama, o que não é uma inverdade, mas, em meio a tantos outros aspectos que superam a excelência, isso se torna apenas um mero e insignificante detalhe.

Ao fim da sessão, ficou apenas a sensação de deslumbramento em virtude da maravilha que eu acabara de testemunhar. Embora acredite que as continuações que o filme provavelmente terá sejam desnecessárias (o que, claro, não se aplica ao lado financeiro da coisa), não consigo conter o desejo de voltar a Pandora. Após quase três horas de projeção, senti que poderia ter permanecido naquele mundo por muito mais tempo, mas, infelizmente, uma hora eu tive que acordar.

Avatar
Avatar, James Cameron, 2009.

15 dezembro 2009

A Princesa e o Sapo



Havia algum tempo que a Disney não se aventurava no mundo das animações ao estilo de seus antigos clássicos, como Cinderela e Branca de Neve e os Sete Anões. Este ano, porém, com direção a cargo dos mesmos responsáveis por Aladdin e A Pequena Sereia, o estúdio resolveu produzir A Princesa e o Sapo, um conto de fadas contemporâneo ambientado em Nova Orleans, na época em que o jazz, que dá o tom da ótima trilha sonora da animação, surgiu com força total.

O fato mais alardeado pela produção era a presença da primeira protagonista negra da Disney, mas isso, na verdade, não faz realmente diferença na trama. Tiana é apenas uma moça pobre, sonhadora e trabalhadora que luta incansavelmente, e até obsessivamente, para alcançar seus objetivos, não muito diferente de uma princesa que nós conhecemos. O príncipe, por sua vez, é um pouco atípico: ele teve a mesada cortada pelos pais e agora procura uma moça rica para casar e poder continuar com sua vida de mordomias. A história se inicia quando Naveen, o príncipe, iludido com as promessas de Facilier, o feiticeiro das sombras, é vítima de um vodu e torna-se um sapo. Tentando ajudá-lo a voltar à sua forma humana, Tiana lhe dá um beijo, mas finda, também, transformando-se em uma sapa. Os dois acabam no pântano, onde vão em busca de outra feiticeira que indicará o caminho correto para reverter a maldição.

Os números musicais, além de excelentes como um todo, são visualmente espetaculares, sobretudo os que envolvem Facilier, com efeitos explosivos e sombrios, e o primeiro de Tiana no espaço onde ela pretende construir seu restaurante, que é estilisticamente muito charmoso. Alguns personagens também são ótimos, como Ray, o vaga-lume apaixonado por uma estrela, e Louis, o crocodilo trompetista. Eles ajudam os protagonistas no pântano e representam a parte mais cômica do longa. E a trilha sonora, conforme já mencionei, é um dos pontos altos de A Princesa e o Sapo, e não apenas durante os números. Mas o romance, embora mais desenvolvido do que em longas semelhantes, nos quais há sempre o "amor à primeira vista", não me convenceu, assim como acontece na maioria dos contos de fadas aos quais assisto. Talvez isso se deva a uma particularidade minha, mas, de qualquer forma, se acontece, preciso considerar um defeito. Em meio à graciosidade do filme, no entanto, isso se torna apenas um detalhe.

É bom ver a Disney voltar às origens, fazendo algo que sabe fazer muito bem, e A Princesa e o Sapo é um recomeço bem satisfatório. Que venham mais clássicos.

A Princesa e o Sapo
The Princess and the Frog, Ron Clements e John Musker, 2009.

11 dezembro 2009

8º Festival Varilux de Cinema Francês - Parte 2

A seleção do Festival foi muito boa, com destaque para "Entre os Muros da Escola" e "A Riviera Não é Aqui". E resolvi não escrever comentários sobre "Mais Tarde, Você Vai Entender...", o último filme exibido, porque, não sei a razão, eu estava muito distraída durante a projeção e ao final percebi que não tinha prestado atenção; ou seja, não tenho condições de falar nada sobre ele.

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA


François Bégaudeau é o autor do livro Entre os Muros da Escola, que inspirou o longa homônimo no qual ele interpreta – muito bem, por sinal, sobretudo se considerarmos que foi seu primeiro trabalho como ator – o professor de francês François Marin, que enfrenta todos os dias o desafio de ensinar, estimular e controlar os alunos adolescentes de uma escola em um bairro periférico de Paris. O filme não aborda, porém, somente a temática pedagógica. Fazendo uso de longos diálogos, principalmente em sala de aula, ele entra em questões sobre racismo, diferenças culturais e conflitos diversos, e mostra a importância do professor, que precisa saber lidar com tudo isso, orientando os alunos e cumprindo o papel de educador não só no ambiente escolar, mas também na vida; e é interessante destacar a calma e o autocontrole necessários para exercer essa função, o que enaltece ainda mais os profissionais da área, visto que a petulância dos adolescentes irrita até o público – e a explosão de um professor em certo momento comprova isso. Com a “câmera na mão” e a ausência de trilha sonora – a única canção ouvida faz parte do universo diegético do filme –, Entre os Muros da Escola se desenrola de forma absolutamente realista, mergulhando o espectador naquele mundo que é válido não só por expor os desafios educacionais, mas também por representar um paralelo com a sociedade, que enfrenta todos os problemas apresentados ali em uma proporção muito maior. Obra admirável.

Entre os Muros da Escola
Entre les Murs, Laurent Cantet, 2007.

UMA GAROTA DIVIDIDA EM DOIS


Uma Garota Dividida em Dois conta a história de Gabrielle, a “garota do tempo” de um canal local que fica dividida entre seu amor por Charles, um escritor sedutor, bem mais velho que ela e casado, e a devoção desequilibrada de Paul, um herdeiro mimado e voluntarioso que, aparentemente, só vê na moça o desafio da conquista. O filme, infelizmente, é conduzido de forma frouxa, com personagens vulneráveis, o que é muito conveniente para que o roteiro os manipule livremente sem que o espectador cobre coerência, e conta com algumas cenas e situações sem cabimento algum, principalmente as que envolvem a histeria de Paul e a passividade de Gabrielle, que, por sinal, é hereditária. Charles é o único que demonstra coerência em suas atitudes e desperta algum tipo de interesse por parte do espectador, o que, no entanto, é muito pouco para segurar o longa. E não havia necessidade alguma de tornar literal o título do filme, em uma cena que alguns podem chamar de poética, mas que eu achei apenas bizarra. Uma Garota Dividida em Dois é, portanto, fraco.

Uma Garota Dividida em Dois
La Fille Coupée en Deux, Claude Chabrol, 2007.

CRIMES DE AUTOR


Enquanto uma famosa escritora procura um tema para seu novo livro, acompanhamos as diferentes histórias dos personagens que, no fim, se unirão para constituir o próprio livro. Crimes de Autor intriga por manter sempre uma interrogação na cabeça do espectador, que nunca sabe ao certo quais são as reais intenções das pessoas que povoam o filme nem até que ponto deve confiar no que elas falam. Além disso, as atitudes meio loucas de certa personagem proporcionam cenas bem engraçadas; e o roteiro é bem amarrado, embora a surpresas e reviravoltas não surtam o efeito esperado, já que o interesse despertado por elas, na verdade, não é tão grande assim. Crimes de Autor é um bom filme, divertido, mas apenas correto.

Crimes de Autor
Roman de Gare, Claude Lelouch, 2007.

07 dezembro 2009

8º Festival Varilux de Cinema Francês - Parte 1

Está havendo, nesta semana, a oitava edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Natal é uma das 14 cidades que recebe o evento e, naturalmente, eu resolvi conferir os filmes. Escrevi três pequenos comentários sobre os que já assisti até agora, e até o fim da semana farei textos sobre os quatro restantes. Veja abaixo:

MAIS QUE O MÁXIMO


Coco, imigrante marroquino que deu certo em Paris, é um bilionário que, a fim de provar que conseguiu “chegar lá”, precisa mostrar a todos seu poder e sua influência. Para isso, organiza festas enormes para milhares de convidados; possui uma casa que mais parece um palácio, com quartos exagerados e em cores chamativas e com vários retratos familiares espalhados pelos cômodos, em sinal de um narcisismo necessário para ele; e até o elevador de sua empresa, ao chegar ao andar de seu escritório, é programado para dizer: “Você chegou ao topo”. O conceito de simples, para Coco, é passar o fim de semana em um iate em Mônaco, e chegar a um jantar de negócios pelo palco durante uma apresentação no Moulin Rouge parece até algo corriqueiro. Em meio à organização do Bar Mitzvah de seu filho, ele fica cada vez mais obcecado por sua mania de grandeza e acaba prejudicando sua relação com a família. Tudo isso, pintado de forma extremamente caricatural (lembre-se: ele é judeu) e com o auxílio de um protagonista verdadeiramente engraçado que leva o filme nas costas, torna Mais que o Máximo uma experiência bastante divertida e digna de muitas gargalhadas. Infelizmente, o longa, com o perdão do trocadilho, desliza na parte final, perdendo ritmo e sendo marcado por um desfecho de uma pieguice incoerente e desnecessária.

Mais que o Máximo
Coco, Gad Elmaleh, 2009.

UM SEGREDO EM FAMÍLIA


Na França do pós-guerra, François, um garoto franzino, precisa viver em uma casa na qual impera a lei do silêncio. Ele nada sabe sobre a história de seus pais, que parece ser determinante para explicar o porquê de muitas coisas, e passa por constantes frustrações ao não conseguir corresponder às expectativas deles com relação, principalmente, aos esportes. Com isso, acaba criando um irmão imaginário no qual faz uma projeção de como ele mesmo gostaria de ser: corajoso, bonito e talentoso. Seria interessante manter essa temática em evidência, mas, a partir de certo ponto, o filme concentra-se apenas em mostrar os segredos escondidos por trás do doloroso silêncio daquela casa e acaba por não desenvolver a história de François, configurando um problema de foco que prejudica um pouco a narrativa, principalmente porque nunca revela o impacto que essas descobertas tiveram na vida dele, mas que não chega a tornar o filme ruim. No aspecto técnico, é interessante notar que a fotografia assume o tom preto-e-branco nas passagens nas quais François já é um homem adulto, como se as cores de sua vida – no caso, a alegria de viver - tivessem esmaecido quando ele cresceu e perdeu o poder imaginativo que ainda lhe permitia sonhar, numa sutileza que faz valer a menção. Reunindo passagens interessantes e envolventes, e a despeito de alguns problemas, Um Segredo em Família é um bom filme.

Um Segredo em Família
Un Secret, Claude Miller, 2007.

A RIVIERA NÃO É AQUI


A fim de agradar a esposa, que passa por momentos de depressão, Philippe Abrams, diretor dos correios de Salon-de-Provence, uma simpática cidade ao sul da França, resolve pedir transferência para uma cidade na Riviera Francesa. Para conseguir a mudança mais facilmente, ele finge ser paraplégico, mas é desmascarado – em uma ótima cena – e, como punição, acaba sendo enviado a Bergues, um pequeno vilarejo ao norte do país, onde precisa permanecer por dois anos e cujo povo é visto com extremo preconceito por seus hábitos e sotaque diferentes. De início, Philippe fica profundamente triste com a transferência, e a sua chegada, explorando as dificuldades de comunicação e a estranheza com a qual ele encara costumes gastronômicos e comportamentais do local, é muito divertida, mas logo o cenário se transforma. O diretor passa a experimentar coisas que só uma cidade pequena proporciona, como amizade, cumplicidade, hospitalidade e solidariedade incontestes – esta última representada em uma divertida passagem que envolve a esposa de Philippe –, e passa a sentir-se muito feliz em Bergues. Com uma leveza ímpar, A Riviera Não é Aqui apresenta excelentes personagens que, embora pouco profundos, mostram-se extremamente carismáticos e encantadores, muito em função de seus ótimos intérpretes, e uma história deliciosamente despretensiosa que conquista de imediato. No fim, até o espectador toma para si a verdade de uma fala dita em determinado momento: “Quando vem ao norte, um estranho chora duas vezes: quando chega e quando vai embora”.

A Riviera Não é Aqui
Bienvenue chez les Ch'tis, Dany Boon, 2008.

03 dezembro 2009

Planeta 51



Os muitos filmes de alienígenas já produzidos mostram sempre os seres humanos tratando os extraterrestres ou como criaturas ameaçadoras ou, no mínimo, com bastante cautela. Planeta 51 inverte esse cenário, levando o espectador a um mundo no qual o próprio homem é um invasor. O filme nos apresenta a um planeta bastante simpático e bonito – cuja aparência, aliás, se aproxima muito de uma mistura entre a Terra do passado e várias de suas projeções do futuro –, que vive sob uma dinâmica social e organizacional, costumes, modos e tradições muito parecidos com os do nosso mundo. A sequência inicial, por exemplo, mostra os seres verdes assistindo a uma superprodução sobre uma invasão alienígena, revelando, logo de cara, algumas dessas semelhanças.

Quem conduz a história é Lem, um “garoto” normal que acabou de conseguir seu primeiro emprego, é apaixonado pela vizinha e faz parte do que parece ser a típica família de seu planeta, que se assemelha muito às americanas tradicionais. A nave do astronauta Chuck pousa justamente em frente à sua casa, e os dois eventualmente se encontram. Após uma conversa, Lem decide ajudá-lo a voltar à Terra, já que no Planeta 51 o exército está caçando-o incessantemente.

Como já virou praxe em algumas animações, o longa traz uma série de referências, e as mais óbvias são as de ET e Cantando na Chuva; mas, em determinado momento, é impossível não ver Chuck fazendo a carinha do Gato-de-Botas de Shrek e não enxergar as semelhanças evidentes entre Hover, uma sonda enviada para fotografar o planeta e que cumpre obsessivamente suas diretrizes, e Wall-E, sobretudo quando a pequena máquina interage com um inseto alienígena – a barata da vez. Hover, porém, passa a se comportar mais como um cachorro a partir de certo momento, inclusive fazendo xixi – ou, no seu caso, derramando óleo – ao enfrentar uma situação de medo, em uma cena no mínimo fofa, como muitas protagonizadas por ele.

É uma pena que o universo do filme apresente algumas inconsistências, dando espaço a questionamentos que poderiam ser facilmente evitados. Como o povo do Planeta 51 pode, por exemplo, ter inteligência suficiente para desenvolver carros flutuantes – utilizando uma tecnologia semelhante à do hoverboard, de De Volta para o Futuro, que ainda é primitiva por aqui – e uma base antialienígena com recursos aparentemente avançadíssimos, mas, ao mesmo tempo, possuir conhecimentos astronômicos bastante limitados e ser facilmente enganado por um cientista descaradamente charlatão? Se eles não demonstrassem qualquer interesse pelo assunto, poderíamos relevar; como não é o caso, tal cenário torna-se um tanto implausível.

Algumas piadas funcionam muito bem, como a do iPod sendo considerado uma “arma horrível” ao tocar “Macarena” – e isso, associado ao fato de Chuck classificar a música do Planeta 51, que se assemelha muito à dos anos 50, como “velha”, só pode ser uma crítica aos hits atuais (e nem precisa ser tão atual assim); e convenhamos que “Lugarzinho estranho pra se ter uma antena” foi uma ótima tirada. Algumas gags visuais, sobretudo as que envolvem um cachorro, também são muito boas. Outras passagens, porém, além de sem graça, foram extremamente forçadas, mas, creio eu, muito em função da dublagem, que decidiu substituir infelizmente não sei o quê por falas relacionadas às Olimpíadas do Rio, aos mil gols de Pelé e à Jovem Guarda, o que se mostrou uma péssima escolha.

O melodrama final, e incômodo, veio na forma de um discurso a respeito do medo do desconhecido, e mesmo antes, na metade da projeção, já víramos Chuck versar sobre o heroísmo – aliás, os astronautas, que são considerados herois em seus países, foram delineados no filme como pessoas apenas charmosas e narcisistas que não precisam realmente fazer muito esforço para alcançar seus objetivos, o que achei injusto, embora isso também não queira dizer que eu os cultue. Apesar dos defeitos, Planeta 51, assim como o próprio, é um filme agradável, simpático e divertido, e é no mínimo interessante observar atitudes tipicamente humanas em outros seres.

Há uma cena adicional após os créditos.

Planeta 51
Planet 51, Jorge Blanco, 2009.