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02 abril 2010

[REC] 2

Contém spoilers

[REC], o primeiro filme do que provavelmente se tornará uma série, foi uma bela surpresa. Eu não tinha qualquer expectativa e acabei me deparando com um mockumentary tenso que, sem explicar muita coisa, colocava o espectador diante de situações de violência assustadoramente cruas. Com o sucesso, era de se esperar que o – excelente – final em aberto fosse aproveitado para dar continuidade à história. Uma pena, porque [REC] 2, tentando esclarecer tudo o que se passara em seu antecessor, quase arruína tudo.

O maior erro foi dar contornos verdadeiramente religiosos à trama. Apesar de levantar a questão em seu término, [REC] ainda deixava dúvidas quanto a isso, mas este segundo, além de confirmar as informações encontradas na cobertura do prédio, ainda traz cenas de exorcismo, sangue “contaminado com o demônio” queimando em função do contato com a cruz e conversas com o próprio capeta, o que provoca reações que beiram o constrangimento.

Há ainda outro fenômeno misterioso: usando a desculpa de que a garota possuída que deu início a tudo só aparece no escuro, os personagens resolvem utilizar a visão noturna da câmera. O grande problema é que isso não explica o fato de portas, passagens e até tanques de água aparecerem somente nessa condição. Para um filme que tinha como um de seus grandes méritos a proeza de conferir verdade a uma história de zumbis – é o que eles são, afinal de contas –, o que aterroriza justamente porque o espectador, de alguma forma, considera aquilo transferível à sua própria realidade, isso é inaceitável.

O ritmo também é prejudicado por falhas do roteiro. Frenético no começo e decepcionando apenas pelo conteúdo das explicações, o filme dá uma pausa absurda em sua inquietude para introduzir novos personagens – chatos e burros – cuja função (que, na verdade, é apenas de um deles) poderia ter sido realizada por pessoas que já estivessem dentro do prédio e com as quais o público já fosse pelo menos familiarizado. Como o longa tem uma duração bem reduzida (apenas 85 minutos), só posso concluir que tudo isso não passou de uma terrível manobra para dilatar o tempo de projeção.

De qualquer maneira, mantendo o estilo cru do primeiro, [REC] 2 ainda tem momentos assustadores, mas, mesmo assim, é decepcionante constatar que toda a trama foi resumida a um demônio lagartão.

[REC] 2
[REC] 2, Jaume Balagueró, Paco Plaza, 2009.

11 dezembro 2009

8º Festival Varilux de Cinema Francês - Parte 2

A seleção do Festival foi muito boa, com destaque para "Entre os Muros da Escola" e "A Riviera Não é Aqui". E resolvi não escrever comentários sobre "Mais Tarde, Você Vai Entender...", o último filme exibido, porque, não sei a razão, eu estava muito distraída durante a projeção e ao final percebi que não tinha prestado atenção; ou seja, não tenho condições de falar nada sobre ele.

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA


François Bégaudeau é o autor do livro Entre os Muros da Escola, que inspirou o longa homônimo no qual ele interpreta – muito bem, por sinal, sobretudo se considerarmos que foi seu primeiro trabalho como ator – o professor de francês François Marin, que enfrenta todos os dias o desafio de ensinar, estimular e controlar os alunos adolescentes de uma escola em um bairro periférico de Paris. O filme não aborda, porém, somente a temática pedagógica. Fazendo uso de longos diálogos, principalmente em sala de aula, ele entra em questões sobre racismo, diferenças culturais e conflitos diversos, e mostra a importância do professor, que precisa saber lidar com tudo isso, orientando os alunos e cumprindo o papel de educador não só no ambiente escolar, mas também na vida; e é interessante destacar a calma e o autocontrole necessários para exercer essa função, o que enaltece ainda mais os profissionais da área, visto que a petulância dos adolescentes irrita até o público – e a explosão de um professor em certo momento comprova isso. Com a “câmera na mão” e a ausência de trilha sonora – a única canção ouvida faz parte do universo diegético do filme –, Entre os Muros da Escola se desenrola de forma absolutamente realista, mergulhando o espectador naquele mundo que é válido não só por expor os desafios educacionais, mas também por representar um paralelo com a sociedade, que enfrenta todos os problemas apresentados ali em uma proporção muito maior. Obra admirável.

Entre os Muros da Escola
Entre les Murs, Laurent Cantet, 2007.

UMA GAROTA DIVIDIDA EM DOIS


Uma Garota Dividida em Dois conta a história de Gabrielle, a “garota do tempo” de um canal local que fica dividida entre seu amor por Charles, um escritor sedutor, bem mais velho que ela e casado, e a devoção desequilibrada de Paul, um herdeiro mimado e voluntarioso que, aparentemente, só vê na moça o desafio da conquista. O filme, infelizmente, é conduzido de forma frouxa, com personagens vulneráveis, o que é muito conveniente para que o roteiro os manipule livremente sem que o espectador cobre coerência, e conta com algumas cenas e situações sem cabimento algum, principalmente as que envolvem a histeria de Paul e a passividade de Gabrielle, que, por sinal, é hereditária. Charles é o único que demonstra coerência em suas atitudes e desperta algum tipo de interesse por parte do espectador, o que, no entanto, é muito pouco para segurar o longa. E não havia necessidade alguma de tornar literal o título do filme, em uma cena que alguns podem chamar de poética, mas que eu achei apenas bizarra. Uma Garota Dividida em Dois é, portanto, fraco.

Uma Garota Dividida em Dois
La Fille Coupée en Deux, Claude Chabrol, 2007.

CRIMES DE AUTOR


Enquanto uma famosa escritora procura um tema para seu novo livro, acompanhamos as diferentes histórias dos personagens que, no fim, se unirão para constituir o próprio livro. Crimes de Autor intriga por manter sempre uma interrogação na cabeça do espectador, que nunca sabe ao certo quais são as reais intenções das pessoas que povoam o filme nem até que ponto deve confiar no que elas falam. Além disso, as atitudes meio loucas de certa personagem proporcionam cenas bem engraçadas; e o roteiro é bem amarrado, embora a surpresas e reviravoltas não surtam o efeito esperado, já que o interesse despertado por elas, na verdade, não é tão grande assim. Crimes de Autor é um bom filme, divertido, mas apenas correto.

Crimes de Autor
Roman de Gare, Claude Lelouch, 2007.

19 novembro 2009

Pequenos comentários #1



Os Fantasmas de Scrooge, nova adaptação de Um Conto de Natal, de Charles Dickens, conta a história do rabugento e mesquinho Ebenezer Scrooge, que, na véspera de Natal, festa que considera um “embuste!”, recebe a visita de três espíritos que tentarão fazê-lo entender que há coisas mais importantes no mundo do que o dinheiro. A mensagem do filme, embora bonita e representada de forma esteticamente encantadora – o motion capture é impressionante –, é desgastada demais aos olhos dos espectadores mais velhos, que saem do cinema com a sensação de ter visto apenas mais do mesmo. As crianças, por outro lado, podem até extrair dali uma lição, mas, em função da linguagem às vezes até rebuscada – confesso que nem eu sabia o que era embuste –, acabam perdendo muitas coisas no caminho, deixando a sala com a provável sensação de incompreensão. Em determinados momentos, o filme ainda é extremamente assombroso e pode se tornar um terror infantil para alguns pequenos (havia mães tapando os olhos de seus filhos na minha sessão). Em suma: bonito, mas dispensável, e pouco eficiente nos aspectos nos quais tinha mais chance de acertar.

Os Fantasmas de Scrooge
A Christmas Carol, Robert Zemeckis, 2009.



Flint Lockwood cresceu tentando inventar algo útil, mas suas engenhocas, sempre dando errado, só o tornaram uma pessoa maluca e inconveniente aos olhos dos habitantes de sua cidadezinha. Ao criar uma invenção de sucesso, porém, Flint passa a ser adorado, e, cego por seu desejo de aceitação, perde a noção dos limites, fazendo com que sua máquina, que transforma água em comida, cause problemas de proporção mundial. Tá Chovendo Hambúrguer foi concebido para ser visualmente exagerado, e aproveita bem essa característica para criar momentos divertidos - como não rir, por exemplo, ao ver um personagem contrair a bunda enquanto ela está em close, numa tentativa inusitada de expressar raiva, ou ao testemunhar o enorme esforço do pai de Flint para mostrar os olhos por trás de sua volumosa sobrancelha?

O filme ainda conta com boas piadas, sendo uma delas até crítica no que diz respeito aos restos de comida (“O que os olhos não veem...”), e brinca com uma “coincidência” recorrente em vários filmes, sobretudo nos de catástrofe (e este pode, sim, ser considerado catastrófico): é impressionante como tudo acontece primeiro nas cidades mais famosas do mundo, não? Até a fotografia deixa de lado a sutileza e muda deliberadamente e com frequência de cinzenta e fria para vivaz e colorida, ou o contrário, dependendo do estado de espírito de seu protagonista. Tá Chovendo Hambúrguer, no entanto, é prejudicado por sequências desnecessárias e aborrece um pouco ao tentar esfregar a lição final na cara do espectador em vez de deixá-la implícita, mas ainda assim é uma experiência divertida.

Tá Chovendo Hambúrguer
Cloudy with a Chance of Meatballs, Phil Lord, Chris Miller, 2009.



Imaginativo e fantástico de forma inacreditável, A Viagem de Chihiro fez com que eu me flagrasse boquiaberta a cada nova criatura que irrompia na tela durante sua projeção. Contando a história de Chihiro, que, após alguns acontecimentos, se vê presa em um mundo completamente estranho, no qual seus pais viraram porcos, o longa leva o espectador a acompanhar a jornada da menina, que consiste, na verdade, em seu crescimento pessoal. Para perceber isso, basta reparar na Chihiro do começo, aparentemente mimada e birrenta, e a do final, capaz de tomar decisões importantes e de abrir mão de seu próprio bem-estar em prol de outras pessoas. A Viagem de Chihiro pode ser um filme para crianças na medida em que desperta o imaginário, mas sem dúvida tem mais força em um adulto capaz de compreender seus significados. Excelente.

A Viagem de Chihiro
Sen to Chihiro no kamikakushi, Hayao Miyazaki, 2003.

17 novembro 2009

Código de Conduta


Contém spoilers

As intenções por trás da história de Código de Conduta são ambiciosas: confrontar o sistema judiciário de forma crível enquanto conta uma narrativa de vingança interessante, inteligente e com apelo emocional. Em sua primeira metade, o longa alcança esses objetivos de modo bastante eficiente, mas, na parte final, os propósitos do protagonista deixam de fazer sentido e dão lugar a uma sequência de ações incoerente com o que fora apresentado até então.

Dez anos após os homicídios de sua esposa e de sua filha, Clyde Shelton (Gerard Butler) coloca em prática um plano de vingança contra os assassinos que cometeram os crimes e todos os envolvidos no processo – e isso inclui promotores, advogados e juízes – que, em vez de dar a eles a sentença desejada pelo personagem de Butler, acabaram entrando em um acordo. De início, Shelton mata os criminosos no que parece ser um plano simples, mas depois vemos que a verdadeira intenção do protagonista é, seguindo um caminho cuidadosamente traçado, expor as falhas e injustiças do sistema, e não importa que isso lhe custe a liberdade ou uma consciência tranquila, já que ele não tem mais nada a perder.

O filme devia ter seguido a linha apontada pela cena do julgamento da fiança de Shelton, quando ele, ao convencer a juíza de que não oferece perigo à sociedade, revolta-se justamente por ela concordar em libertá-lo, provando de maneira competente e inquestionável seus argumentos a respeito da frouxidão judiciária. E, ao entrar em seguidos acordos com Nick Rice (Jamie Foxx), o promotor que cuidou do caso de sua família, Shelton também consegue, de modo sutil, criticar a conduta seguida por ele, que foi exatamente o que os levou àquela situação.

Infelizmente, porém, o roteiro de Kurt Wimmer torna-se inconsistente e mirabolante demais, optando por explicações inaceitavelmente convenientes para os seus mistérios. Tudo pode ser esclarecido pelo fato de Clyde Shelton ser um gênio riquíssimo, o que abre um leque enorme de possibilidades para que ele consiga, de dentro da prisão, comandar todo o caos que se instala do lado de fora. Sim, porque é exatamente nisso que, em certo ponto, os planos de Shelton se transformam. Se antes queria confrontar o sistema, ele passa depois a querer apenas instaurar a completa desordem, tirando a vida de todos mesmo que isso não o leve a lugar algum, o que desvirtua totalmente as intenções iniciais do filme. Até mesmo as atitudes do personagem de Butler apresentam incoerências. Mostrando-se frio, calculista e até sádico durante quase toda a projeção, ele demonstra um sofrimento inverossímil em determinado momento.

A solução encontrada para o final se distancia muito de uma decisão mais realista, e ainda vale mencionar o tempo recorde que Nick Rice gasta para se deslocar de um lugar a outro. De qualquer modo, é uma pena perceber que uma boa ideia, e que durante o filme esteve muito próxima de surtir o efeito desejado, tenha sido distorcida e praticamente arruinada pelo aparente desejo de dar ao longa mais momentos de tensão e que pudessem surpreender o espectador.

Código de Conduta
Law Abiding Citizen, F. Gary Gray, 2009.