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25 fevereiro 2010

Pequenos comentários #2 - Oscar

Resolvi fazer pequenos textos sobre os filmes envolvidos de alguma forma no Oscar. Neste post, colocarei três dos dez indicados a Melhor Filme, e nos próximos dias, possivelmente, farei mais uma postagem com comentários sobre O Segredo dos Seus Olhos, Um Olhar do Paraíso e Guerra ao Terror.

DISTRITO 9

Uma ficção científica com apelo social. Assim é Distrito 9. Utilizando um orçamento até modesto para os dias de hoje, sobretudo porque, como já disse, trata-se de uma ficção científica – e mesmo assim a obra oferece ótimos efeitos especiais –, o filme faz uso do formato mockumentary para mostrar a relação de segregação que os seres humanos estabeleceram com os alienígenas que estacionaram sua nave sobre a cidade de Johanesburgo, numa metáfora para o apartheid ou até mesmo para o comportamento costumeiro dos seres humanos para com grupos que, por algum motivo, são considerados inferiores. O próprio estilo do longa, auxiliado pela fotografia clara e amarelada, causa desconforto no espectador, que testemunha toda a pobreza e a miséria nas quais vivem aqueles seres enquanto acompanha a ação de despejo comandada pelo protagonista do filme, que posteriormente enriquece a trama com uma metamorfose física e psicologicamente perturbadora, sentindo – e transmitindo ao espectador com uma ótima atuação – na pele o preconceito sofrido por aqueles que ele antes maltratava. Assim, Distrito 9 torna-se não só um exercício de lazer, mas também de reflexão.

Distrito 9
District 9, Neill Blomkamp, 2009.

UM SONHO POSSÍVEL

Um Sonho Possível é conduzido respeitando o fato de contar uma história naturalmente tocante. Assim, o filme jamais faz uso de recursos que poderiam torná-lo apelativo e, consequentemente, falso. A atuação de Sandra Bullock é contida e, lutando contra a própria aparência, ela desconstrói a imagem de arrogante que o espectador forma à primeira vista para, posteriormente, conquistá-lo, mostrando que por trás da maquiagem, do penteado, do carrão e da mansão há uma mulher simples e profundamente bondosa, e é necessário salientar que essa impressão jamais parece forçada (Sandra Bullock muitas vezes deixa transparecer seus trejeitos de atriz cômica). Quinton Aaron também faz do seu Michael Oher um sujeito adorável. Com o semblante sempre triste, ele consegue transformar uma pessoa enorme e extremamente forte em alguém aparentemente indefeso e incapaz de machucar os outros, a não ser em situações bem específicas. É a dinâmica entre os dois que move Um Sonho Possível, um filme simples e bonito, até bobo, que ganha impacto por contar uma história real.

Um Sonho Possível
The Blind Side, John Lee Hancock, 2009.

PRECIOSA - UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA

Precious é gorda, negra, pobre, sofre abusos sexuais em casa, tem um filho portador de Síndrome de Down, não consegue aprender coisa alguma na escola, é seguidamente humilhada e espancada pela própria mãe, não tem amigos e está grávida pela segunda vez. Em suma: é a tragédia em pessoa, o tipo de protagonista que dá a um filme todos os recursos para que ele seja concebido como um dramalhão choroso e pouco verossímil. Mas não é isso o que acontece aqui. As ótimas atuações dão a exata sensação de como é insuportável levar aquela vida miserável – tanto que, para conseguir lidar com sua própria realidade, Precious imagina intensamente algumas situações de glória –, mas, com apenas duas exceções perfeitamente compreensíveis depois de tanto sofrimento, e encaixadas organicamente no filme, jamais somos obrigados a testemunhar discursos de lamentação. O único problema é que, na ânsia por ser diferente, e não apenas mais um filme sobre preconceito e dificuldades da vida de uma pessoa gorda, negra e pobre, Preciosa às vezes exagera em seus devaneios. Isso, no entanto, não tira seus outros méritos. Bom filme.

Preciosa - Uma História de Esperança
Precious, Lee Daniels, 2009.

07 dezembro 2009

8º Festival Varilux de Cinema Francês - Parte 1

Está havendo, nesta semana, a oitava edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Natal é uma das 14 cidades que recebe o evento e, naturalmente, eu resolvi conferir os filmes. Escrevi três pequenos comentários sobre os que já assisti até agora, e até o fim da semana farei textos sobre os quatro restantes. Veja abaixo:

MAIS QUE O MÁXIMO


Coco, imigrante marroquino que deu certo em Paris, é um bilionário que, a fim de provar que conseguiu “chegar lá”, precisa mostrar a todos seu poder e sua influência. Para isso, organiza festas enormes para milhares de convidados; possui uma casa que mais parece um palácio, com quartos exagerados e em cores chamativas e com vários retratos familiares espalhados pelos cômodos, em sinal de um narcisismo necessário para ele; e até o elevador de sua empresa, ao chegar ao andar de seu escritório, é programado para dizer: “Você chegou ao topo”. O conceito de simples, para Coco, é passar o fim de semana em um iate em Mônaco, e chegar a um jantar de negócios pelo palco durante uma apresentação no Moulin Rouge parece até algo corriqueiro. Em meio à organização do Bar Mitzvah de seu filho, ele fica cada vez mais obcecado por sua mania de grandeza e acaba prejudicando sua relação com a família. Tudo isso, pintado de forma extremamente caricatural (lembre-se: ele é judeu) e com o auxílio de um protagonista verdadeiramente engraçado que leva o filme nas costas, torna Mais que o Máximo uma experiência bastante divertida e digna de muitas gargalhadas. Infelizmente, o longa, com o perdão do trocadilho, desliza na parte final, perdendo ritmo e sendo marcado por um desfecho de uma pieguice incoerente e desnecessária.

Mais que o Máximo
Coco, Gad Elmaleh, 2009.

UM SEGREDO EM FAMÍLIA


Na França do pós-guerra, François, um garoto franzino, precisa viver em uma casa na qual impera a lei do silêncio. Ele nada sabe sobre a história de seus pais, que parece ser determinante para explicar o porquê de muitas coisas, e passa por constantes frustrações ao não conseguir corresponder às expectativas deles com relação, principalmente, aos esportes. Com isso, acaba criando um irmão imaginário no qual faz uma projeção de como ele mesmo gostaria de ser: corajoso, bonito e talentoso. Seria interessante manter essa temática em evidência, mas, a partir de certo ponto, o filme concentra-se apenas em mostrar os segredos escondidos por trás do doloroso silêncio daquela casa e acaba por não desenvolver a história de François, configurando um problema de foco que prejudica um pouco a narrativa, principalmente porque nunca revela o impacto que essas descobertas tiveram na vida dele, mas que não chega a tornar o filme ruim. No aspecto técnico, é interessante notar que a fotografia assume o tom preto-e-branco nas passagens nas quais François já é um homem adulto, como se as cores de sua vida – no caso, a alegria de viver - tivessem esmaecido quando ele cresceu e perdeu o poder imaginativo que ainda lhe permitia sonhar, numa sutileza que faz valer a menção. Reunindo passagens interessantes e envolventes, e a despeito de alguns problemas, Um Segredo em Família é um bom filme.

Um Segredo em Família
Un Secret, Claude Miller, 2007.

A RIVIERA NÃO É AQUI


A fim de agradar a esposa, que passa por momentos de depressão, Philippe Abrams, diretor dos correios de Salon-de-Provence, uma simpática cidade ao sul da França, resolve pedir transferência para uma cidade na Riviera Francesa. Para conseguir a mudança mais facilmente, ele finge ser paraplégico, mas é desmascarado – em uma ótima cena – e, como punição, acaba sendo enviado a Bergues, um pequeno vilarejo ao norte do país, onde precisa permanecer por dois anos e cujo povo é visto com extremo preconceito por seus hábitos e sotaque diferentes. De início, Philippe fica profundamente triste com a transferência, e a sua chegada, explorando as dificuldades de comunicação e a estranheza com a qual ele encara costumes gastronômicos e comportamentais do local, é muito divertida, mas logo o cenário se transforma. O diretor passa a experimentar coisas que só uma cidade pequena proporciona, como amizade, cumplicidade, hospitalidade e solidariedade incontestes – esta última representada em uma divertida passagem que envolve a esposa de Philippe –, e passa a sentir-se muito feliz em Bergues. Com uma leveza ímpar, A Riviera Não é Aqui apresenta excelentes personagens que, embora pouco profundos, mostram-se extremamente carismáticos e encantadores, muito em função de seus ótimos intérpretes, e uma história deliciosamente despretensiosa que conquista de imediato. No fim, até o espectador toma para si a verdade de uma fala dita em determinado momento: “Quando vem ao norte, um estranho chora duas vezes: quando chega e quando vai embora”.

A Riviera Não é Aqui
Bienvenue chez les Ch'tis, Dany Boon, 2008.

20 novembro 2009

500 Dias com Ela


Contém spoilers

A sinopse de 500 Dias com Ela revela, de antemão, que esta não é uma comédia romântica qualquer: ela é triste. O filme conta a história de Summer, uma mulher que não acredita no verdadeiro amor, e de Tom, o homem que se apaixona por ela. Auxiliado por uma tela com o desenho de uma árvore, que guia o espectador ao longo dos 500 dias e cuja aparência revela em que situação se encontra o relacionamento dos dois, o longa deixa a linearidade de lado e tem força suficiente para mostrar, logo no início, como as coisas vão terminar sem que o espectador perca o interesse.

Com uma atmosfera meio indie, o filme é povoado por pessoas vestidas com roupas em tons pastéis, e a fotografia quase sempre acompanha o estilo a fim de conferir ao longa um adequado clima melancólico, que é, sem dúvida, uma de suas marcas. O espectador é levado da alegria à tristeza, da esperança à decepção, em questão de segundos. A sequência na qual Tom dança na rua, por exemplo, é contagiante – além de divertida e inusitada –, mas, no momento seguinte, somos obrigados a testemunhar sua profunda tristeza quando a tela indica a passagem de dias, como se a estrutura do filme tivesse sido estabelecida justamente para impedir que a plateia se sentisse bem por muito tempo. Outra cena interessante, e que talvez comprove o ponto que acabei de expor, é a que se passa dentro da loja na qual Tom e Summer “brincam de casinha”. O filme dá, na metade da projeção, o aperitivo do que seria o final feliz, mas o casal que está ali na verdade nem chega a se formar de fato.

A cena mais genial, porém, é a que confronta expectativas e realidade. Dividindo a tela ao meio, o filme apresenta simultaneamente como Tom espera que as coisas aconteçam e como elas realmente ocorrem. Apesar de as duas sequências caminharem para lados tão distintos, continuamos testemunhando as esperanças porque Tom, embora tenha consciência dessa disparidade, não consegue parar de alimentá-las, e isso é confirmado quando a tela se unifica subitamente em função do aparecimento do provavelmente único objeto capaz de destruir seus sonhos.

Os momentos engraçados ficam por conta principalmente do ambiente de trabalho do protagonista. É impossível não soltar uma gargalhada, por exemplo, quando, logo após demonstrar preocupação com o comportamento depressivo de seu funcionário, o patrão de Tom resolve aproveitar-se profissionalmente desse estado para designá-lo ao posto de criador de cartões de condolências. Divertida também é a cena que, com o único objetivo de exibir um momento descontraído do casal, mostra os dois gritando repetidamente a palavra “pênis”. A irmã dele, porém, que poderia ser cômica, torna-se chata de tão adulta.

Destaco ainda a trilha sonora, com músicas das quais particularmente gosto muito, e a narração, que, verbalizando os sentimentos do protagonista, aproxima-o ainda mais do espectador – no começo, até lembrei um pouco de Pushing Daisies. Na conversa do fim, é interessante notar que há uma árvore – a da tela que conta os dias? – dividindo o enquadramento com Tom e Summer (fiz uma leitura maluca dessa cena, mas nem sei se faz sentido); e o desfecho é corajoso ao, por meio do narrador, desconstruir a mensagem sobre destino quase sempre presente nas comédias românticas convencionais, atribuindo tudo a coincidências.

500 Dias com Ela é, sim, um filme sobre uma triste – e unilateral – história de amor, mas mostra também que isso não é o fim do mundo, já que outras coincidências estão sempre prestes a acontecer. Que bom.

500 Dias com Ela
(500) Days of Summer, Marc Webb, 2009.